Escolha seu número e seja feliz

Números • Kevin Doogley | Flickr • 2017

Números • Kevin Doogley | Flickr • 2017

Acordou suado e ofegante. Era um sonho, mas parecia tão real quanto a cama onde repousava depois de um dia cansativo. Desorientado, levantou-se e não conseguiu encontrar o par de sandálias que costumava deixar ao lado da cama. Decidiu ir à cozinha tomar um copo d’água assim mesmo.

Passou em frente do quarto da mãe que dormia profundamente. Por alguns instantes, fixou o olhar naquele corpo repousando sozinho na cama, coberto da cabeça aos pés apesar do calor que fazia naquele final de madrugada. Agora, ela fazia questão de dormir com a porta do quarto aberta, diferente do que fazia quando ainda tinha companhia.

Abriu a geladeira, levou a garrafa de vidro com a tampa amarela até a pia e encheu seu copo pela metade. Completou-o com água da torneira mesmo e bebeu.

As imagens do sonho se organizaram sem muito esforço. Um homem sorria como se houvesse ganhado o presente mais desejado de toda sua existência. Não era uma gargalhada. Apenas um sorriso capaz de exprimir o contentamento que satisfaz a alma. Com olhos bem abertos, o homem iniciou uma série de contagens. Da primeira vez, ele foi até dez. Da segunda, até nove. E seguiu assim, até que chegou ao número um. Tendo dito o nome do algarismo, sorriu novamente e falou suspirando: “Escolha seu número e seja feliz.”.

Após reviver o sonho, colocou o copo na pia sem lavá-lo, mesmo sabendo que, pela manhã, sua mãe iria lhe dar uma bronca. E decidiu tomar um banho para ir trabalhar mais cedo. Havia perdido o sono e, mesmo que conseguisse dormir novamente, teria apenas mais meia hora para descansar.

Abriu o chuveiro. Molhou os cabelos. Lavou com xampu. Enxaguou. Tomou o frasco com o condicionador e colocou uma pequena quantidade na palma da mão. Tinha um cheiro gostoso de infância e aparência de diversão, embora fosse seu condicionador cotidiano anti-caspa. Na verdade, não importava o tipo que ele tivesse nas mãos. Todos teriam o mesmo aroma e som: seu pai.

De pé perto da pia do banheiro, ele dizia ao menino:

– Abra a mão.

E o menino estendia o braço franzino com a mão aberta em direção ao pai.

– Tome aqui e coloque na cabeça.

Concentrado, o menino fixava os olhos na substância e, com bastante força e rapidez, batia com as mãos na cabeça a ponto de mais condicionador cair no chão do banheiro do que ficar em seus cabelos.

– Cuidado, rapaz! Desse jeito, não adianta passar condicionador. Agora, espalhe bem.

A criança, ciente da rotina, passava as mãozinhas vagarosamente por toda a cabeça. Até as orelhas ganhavam uma dose generosa do produto.

– Está bem, filho. Agora, vamos lá…

– Um, dois, três…

O menino começava a recitar aquela sequência de números com os fios de cabelo cheios de condicionador e fora do alcance da água que descia do chuveiro. Nos dias em que estava com preguiça de tomar banho, a contagem era tão ligeira que as palavras mal podiam ser compreendidas. Nos dias frios e de água quente, os numerais se arrastavam eternamente como se cada um deles fosse uma ópera. A cadência da contagem dependia do humor da criança.

– Quatro, cinco, seis…

Quando o pai começou a ensinar o guri a tomar banho sozinho, a criança queria tratar xampu e condicionador do mesmo jeito. Até que o pai teve a ideia de introduzir a contagem como uma forma de o menino permitir que o condicionar acariciasse os cabelos do moleque por um pouco mais de tempo. Deu certo. Depois de espalhar o produto pelos fios castanhos, ele mantinha a cabeça longe da água que vinha do chuveiro até chegar ao número mágico: dez.

– Sete, oito, nove…

O aprendizado foi uma das coisas que ficou depois da partida do pai, pois essa é uma das formas pelas que as pessoas continuam vivas mesmo após a morte: pelo que nos ensinam. Assim, quase sempre de forma automática, o menino que havia crescido até se tornar um adulto repetia o mesmo ritual da contagem a cada banho.

– Dez!

Pronunciada a palavra mágia, a cabeça do menino voltava para debaixo do fluxo d´água. No início de todo aquele treinamento, as mãozinhas faziam movimentos sem muita coordenação, mas, ainda assim, alcançavam seu objetivo. Em alguns segundos, o cabelo estava perfumado, acariciado e livre do condicionador.

– Muito bem. – dizia o pai aproximando seu olhar da cabeça do filho para certificar-se de que tudo estava certo.

O condicionador ainda estava em sua mão quando aquele sonho do homem sorrindo e contando foi repassado mais uma vez em sua mente. Interrompendo a lembrança da infância, ele retirou a cabeça do alcance da água que descia do chuveiro, levou suas mãos aos cabelos e espalhou o produto pelos fios. Automaticamente, apenas para si, começou a contagem que fazia todos os dias.

– Um, dois, três…

Havia aquela proposta de promoção tão buscada e esperada. Ele deveria dar uma resposta a respeito do convite ainda naquela semana, mas não tinha ideia do que diria. Seu coração estava confuso. A imagem de sua mãe, sozinha naquela cama, lhe atormentava. Ele sabia que ela se recusaria a deixar para trás a casa onde havia criado seu filho e compartilhado toda sua vida com seu amor.

– Quatro, cinco, seis…

Ele sentia que ela não estava bem o suficiente para ficar sozinha naquele momento tão delicado. O tempo ainda não havia feito seu trabalho de sarar as feridas causadas pelo manto negro. A saudade e o vazio que sempre andam lado a lado tinham montado acampamento naquela vida e não pareciam ter planos de partir tão cedo. Ele já havia pensando até em psicólogos e psiquiatras.

– Sete, oito, nove…

A casa havia se tornado fria e cheia de penumbras, silêncios desconfortáveis e diálogos que narravam o que, naquele momento, já existia apenas na memória. As rotinas funcionavam como as cordas daquelas pontes que balançam um bocado – evitavam uma queda final, mas o mantinham sempre meio tonto.

– Dez.

A cabeça ainda permaneceu longe do alcance da água quente do chuveiro. Seus pensamentos estavam mais longe ainda. Afinal, por que contar até “dez”? Por que não ir até “cem”? Talvez, “quinze” seja suficiente, não? Mas e se “onze” for demais? E por que seria? E que tal começar de novo e ir apenas até “cinco”? Estaria certo em fazer isso? E por que não estaria? E por que essa necessidade de que tudo estivesse “certo”?

“Escolha um número e seja feliz.”, o homem no sonho havia falado. Mas, feito criança birrenta, ele não escolheu número nenhum. Fechou o chuveiro ainda com os cabelos encharcados de condicionador e secou com a toalha o máximo que conseguiu.

Vestiu suas roupas, beijou sua mãe ainda na cama, tomou seu carro, dirigiu até a empresa e, ao chegar, foi direto ao escritório de seu superior. Após um tempo de espera, conversou por poucos minutos. Tudo estava resolvido. Pronto.

Entrou novamente no carro e retornou para casa. Encontrou sua mãe pensativa com uma xícara de café na mão.

– Mãe, preciso lhe contar algo, disse ofegante.

– Filho, às vezes as subtrações da vida multiplicam as nossas percepções de tal maneira que começamos a ver as coisas de maneira diferente. Isso acrescenta algo à nossa própria existência, por vezes nos dividindo em partes conflitantes.

– Eu entendo a senhora. Sei bem o que quer dizer. É por isso é preciso lhe contar uma coisa que vai lhe deixar muito feliz.

– Eu também tenho algo a lhe contar – sua mãe foi mais rápida. Liguei para sua tia que mora em Sydney uns dias atrás. Já está tudo acertado. Vou me mudar para lá. Parto em vinte dias e nove dias. Assim, você pode seguir em frente e aceitar aquela promoção que tanto lutou para conseguir. Você vai ser transferido para Perth, não é? São apenas umas cinco horas de avião atravessando a Austrália..

– O quê? Sydney? A senhora já pesquisou até o tempo entre as cidades? Eu não entendo…

– Claro que pesquisei. Fique tranquilo. Você e eu vamos ficar bem. O corretor ligou agora pouco dizendo que já temos um comprador para a casa. Negócio fechado. Ele estava no cartório assinando os papéis – dei-lhe uma procuração. É um casal que está de mudança para a cidade. Quer ficar com tudo – até com os móveis. Ótima notícia, não é meu filho? Chegou a hora de seguir adiante. Estou apreensiva mas feliz. E você… quer me contar o quê?

– Eu, eu… não escolhi número algum e nem tirei o condicionador do cabelo hoje pela manhã. Agora acho que deveria ter feito isso…

– Como assim? Não estou entendendo. Eu sei que você anda confuso e triste nas últimas semanas. Mas não estou entendendo essa história de número e condicionador.

– Ele falou: “Escolha seu número e seja feliz”.

– Ele quem? Você está bem?

– No sonho….

– Escute. Fiz questão de resolver as coisas da melhor maneira possível sem sobrecarregar você. Não vai ser ótimo recomeçarmos nossas vidas em outro país? Minha irmã e eu vamos reviver os dias de adolescência em que dividíamos a mesma casa. E você vai ter independência e liberdade de tomar suas decisões sem precisar se preocupar comigo. Vai poder fazer suas próprias escolhas e ser feliz.

– Mãe… – disse com os olhos arregalados – acabei de conversar com meu supervisor e recusei aquela promoção exatamente para ficar aqui no Brasil com a senhora. Outra pessoa até já foi designada para a função.

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