O dia em que você estragou nosso encontro

Depois do engano (Après la Faute) • Jean Beraud • c.1890

Depois do engano (Après la Faute) • Jean Beraud • c.1890

Quando você chegou ao nosso encontro, eu já estava lá. Eu sou assim – sempre chego aos lugares antes de todo mundo. Foi por isso que eu lhe vi entrando no recinto. Você estava distraído, meio cansado e com a cabeça nas nuvens. Achei que você falaria comigo assim que chegasse. Mas, como quase sempre, você me ignorou. Ficou conversando com algumas pessoas que também estavam no local. Até aí, tudo bem. Afinal, isso é ser educado, não é?

Então, começaram a tocar algumas músicas. Particularmente, comecei a observar os cantores e os tocadores. Eles pareciam olhar para mim. Cheguei a ter mesmo a impressão de que eles cantavam para mim. Porém, fiquei triste quando percebi que, lá no fundo, apenas uns deles realmente estavam curtindo a música. Alguns estavam ali apenas por obrigação. Eu esperava um pouco mais deles. Felizmente, não eram todos os integrantes da banda que agiram assim. Havia um ou dois, em especial, que estavam se esforçando para meditar e viver a poesia que cantavam. Isso me alegrou um pouco e até tocou meu coração.

Enquanto eu estava percebendo essas coisas, você parecia não gostar da música nem um pouco. Poxa… era a minha música. Mas você nem ligou. Você sabia a letra e até cantarolou algumas partes que achava mais legais. Porém, eu via nos seus olhos que você não estava cantando pensando em mim, mesmo sendo a minha música. Por isso, ficou soando artificial – uma coisa vazia. Imagine: a gente está num encontro e estão tocando a minha música. Você se propõe a cantar para mim, mas não é de coração. Você nem queria olhar nos meus olhos! Parecia até que estava me evitando. Definitivamente, eu não gostei muito dessa parte musical do nosso encontro. Esperava um pouco mais de sinceridade e intensidade de você.

Quando as músicas acabaram, lhe pedi algum dinheiro para poder ajudar um menino que estava mendigando pelas mesas. Tadinho dele… Meu coração ficou partido quando eu o vi. Por isso, eu queria ajudá-lo. Lhe expliquei que você podia me dar qualquer quantia. Eu ia ficar feliz em saber que podia contar com você para ajudar aquele menino.

Foi quando quase me assustei. Sua expressão mudou. Você ficou com raiva. Achou ruim que eu quisesse ajudar alguém com seu dinheiro. Você falou que havia suado demais para ganhar seu salário e que não era justo dar assim, tão facilmente. Aquilo me chocou de tal maneira que eu falei apenas para meus botões: “fui eu quem lhe consegui seu emprego atual”. Quando você estava desempregado, conversou comigo e eu decidi lhe ajudar. Agora, você não queria ajudar o menininho? Coitado dele. É que eu mesmo não ando com dinheiro, senão daria um bocado para ele. Por isso, lhe falei de uns trocados. Nem estipular uma quantia, eu estipulei. Mas você se recusou e acabou me deixando mais triste ainda.

Então, sentados à mesa, começamos a refeição. O cardápio era especial. Ele estava na minha mente faz muito tempo. Você nem imagina o quanto. Refleti sobre suas necessidades nutricionais e sobre seu paladar e elaborei algo personalizado. Era uma comida saborosa capaz de alimentar o corpo, a mente e a alma. Quando o garçom trouxe a entrada, você franziu a testa. E, para disfarçar que não queria comer o que preparei, você pegou seu celular e começou a mexer nele. Eu queria lhe contar algumas coisas bem interessantes sobre mim e minha semana. Mas você não parava de acessar suas redes sociais. Nem olhava nos meus olhos que procuravam seu coração.

Quando o garçom retirou a entrada e trouxe o prato principal, você pegou o talher e fez de conta que comeu. Entretanto, eu sei que você cuspiu enquanto puxava assunto com as pessoas da mesa ao lado. Realmente, eu queria entender como é que você marca um encontro comigo e fica batendo papo com as pessoas ao lado. E você nem me envolveu na conversa! Apenas me ignorou como se eu nem estivesse ali. Sinceramente, isso me chateou demais.

Quando estava quase na hora de você ir embora, você me terminou de estragar nosso encontro amoroso. Porque você começou a agir de forma dissimulada. Tirou do bolso uma lista de pedidos de ajuda e me deu. E não era uma lista pequena não, viu? Você me entregou sua lista de necessidades e luxos sem o menor pudor, dizendo que precisava daquelas coisas urgentemente. Usando de sinceridade, eu quis lhe dizer umas boas verdades. Mas você não parava de falar. Estava praticamente vomitando pedidos e mais pedidos. Quando você finalmente terminou sua tagarelice, levantou-se e se foi.

É por isso que eu decidi escrever esta mensagem para você. Para dizer o quanto nosso encontro foi ruim e chato. Para lhe falar o quanto você foi egoísta e insensível. Foi decepcionante passar aquele tempo com você. Você fingiu que cantou a minha música. Você se mostrou um ser humano ingrato recusando meu pedido de dinheiro. Você desprezou a comida que eu fiz pensando em você. Você me ignorou na mesa enquanto eu falava. Você preferiu conversar com as pessoas ao nosso lado do que me olhar nos olhos. Você ficou nas redes sociais o tempo todo. E, como se isso tudo não bastasse, você me deu uma lista de coisas que você precisa urgentemente. Percebe como tudo na sua vida é sobre “você”?

Que tipo de pessoa você acha que eu sou? Um cachorro desesperado por sua atenção? Uma prostituta que se vende por migalhas? Um gênio da lâmpada obrigado a atender seus três pedidos? Um empregado da sua família? Ei! Deixe-me lhe dizer algo: eu não sou nada disso. Tenha certeza que não sou. Por que eu sou o “Eu Sou”!

Disse Deus a Moisés: “Eu Sou o que Sou. É isto que você dirá aos israelitas: Eu Sou me enviou a vocês”. Êxodo 3.14

Se eu me encontro com você, é porque gosto de você. Se eu atendo alguns dos seus pedidos, é porque eu sou bom. Se eu aceito você cantar uma música para mim, é porque eu sou misericordioso. Se eu preparo uma mesa para você, é porque você é meu convidado. Mas deixe-me ir direto ao ponto: não precisa vir mais me encontrar se for para agir assim. Eu não vou mais tolerar essa sua atitude de desrespeito e desamor. Porque você vem e fica fingindo que está comigo quando, na verdade, você só quer entregar essa sua “listinha de pedidos para ontem”.

Cadê minha música cantada com os seus olhos no meu coração? Onde ficou sua gratidão pelo que já fiz por você? Ou você se esqueceu de todos os meus sacrifícios por você e de todas as coisas boas que eu lhe proporciono diariamente? Por que você rejeita a comida que eu preparo para você? Será porque ela nem sempre é agradável ao seu paladar? Saiba que ela nutre a alma e o espírito – e isso é mais importante. E nem precisa falar que estou com ciúmes. Eu não tenho nenhum problema em admitir que sinto ciúmes de você.

Então, se você vir novamente me encontrar (e eu espero que venha), fique comigo de forma plena. Não quero você pelas metades. Não insista num relacionamento morno porque eu odeio isso. Me dá vontade de vomitar. Quando vier, me ame de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.

De quem morreu por você,

Cristo

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